Muito se tem falado nos cortes orçamentais e salariais que um pouco por todo o país e bolsas estão a acontecer. As câmaras municipais são as que mais berram, habituadas que estavam ao esbanjamento, às festarolas e aos forrobodós.
Se estes cortes me parecem correctos, já não penso o mesmo em relação aos cortes salariais. Não era por aí que o governo deveria ir. Se bem que reconheça que há por aí muita gente a ganhar muita nota a levantar pouco mais que uma palheira. Se precisam de dinheiro vão buscá-lo onde mais há. É o que há mais neste país.
A mim não me cortaram nada, mas a criminosa e ruinosa subida do IVA, que vai mexer em tudo, já está a mexer na minha administração caseira. Logo tenho que fazer cortes.
E os cortes vão necessariamente para os comes e bebes, água e luz que é o que se gasta mais. Só pode ser, porque calçar e vestir, só quando o rei fizer anos.
De princípio, pensei em passar a comer dia sim, dia não, mas como os médicos dizem que, com a saúde só eles é que podem brincar, então vamos lá poupar de outra maneira, a ver se vegetamos mais uns tempos.
Por exemplo, num dia em que confeccione, arroz de feijão com pataniscas, já sei o que tenho de fazer: ao almoço deito abaixo o arroz e ao jantar enfardo as pataniscas. A acompanhar, nada de vinho. Aguinha, porque afinal não faz criar caganatos na barriga coisa nenhuma. Noutro dia em que o peixe dos pobres não esteja ao preço do cherne ou do robalo, cozo batatas para acompanhar as sardinhas fritas em cebolada e lá vai mais do mesmo: ao almoço marcha a sardinhada para não azedar e ao jantar embarcam as batatas. Toda a semana será mais ou menos assim, mais arroba menos quintal. Ao domingo, a ementa pode mudar um pouco: Pode ser uma açorda de bacalhau que será confeccionada com requintes de poupança. Quando esta, estiver ao lume quase a sair, e porque o fiel amigo anda caro como ó caraças, mergulhamos no tacho, durante uns minutos, que é para dar para outras vezes, um rabito de bacalhau seco, suspenso por um fio, para ver se a “iguaria” sabe a alguma coisa.
Claro que tudo isto gasta água. E a água está pela hora da morte como se sabe. E como sabemos fazer contas, temos que fechar as torneiras. Porque se um consumidor gasta cinco euros de H2O, a factura final é de vinte. É que na minha aldeia, a água é caríssima, porque a empresa municipal que a gere, patrocina o clube de futebol profissional local. E nós temos que pagar isso tudo, mais o excesso de cloro e lixívia que ela traz. Por isso, os banhos terão de ser como antigamente: pés e pescoço, ao sábado.
Na electricidade, os cortes também vão ser bastante acentuados. A EDP (que quer dizer É Do Pior) que Mexia nos nossos bolsos, pode ser que mexa menos. Regressarão os candeeiros a petróleo, as românticas velas e, como estamos de tanga, dançamos o tango à média luz. Televisão, só ao domingo para espreitar o talento dos portugueses para a palhaçada. Rádio, só nos podemos permitir os discos pedidos da RCP, para não perder de vista, perdão de ouvido, o Tony Carreira. Porque afinal, isto de cortar, tem de ser com elevação.
Estes cortes no meu quotidiano justificam-se, porque não tenho propriamente o orçamento da Câmara Municipal da minha aldeia, que com o “graveto” que já lançou fora em excursões, em foguetório, em modas, em urbanas, saramagas, sibilinas e farias “kolturas” já dava para degustar uma lampreiada à bordaleza, sei lá quantos anos.
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